Por que a pastilha quebra antes da hora? Aprenda a ler o código ISO e escolha a certa

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Por que a pastilha quebra antes da hora? Aprenda a ler o código ISO e escolha a certa

Usinagem na prática · Ferramentas de corte

Quando uma pastilha quebra com frequência, a primeira reação costuma ser culpar a qualidade da ferramenta. Na prática, em muitos casos o problema está na combinação entre parâmetros de corte, fixação da peça e escolha da geometria da pastilha. Esses fatores reduzem a vida útil da ferramenta e aumentam o custo por peça.

Antes de trocar de marca, vale revisar a aplicação e verificar se a ferramenta é mesmo a mais adequada para o material e para a operação. Uma pastilha com a geometria correta entrega mais estabilidade, melhor acabamento superficial e um ganho expressivo de produtividade.

E é justamente aí que entra o código impresso na embalagem: aquela sequência de letras e números não é código interno de fabricante, é a norma ISO 1832, e ela descreve a pastilha inteira. Quem sabe ler esse código escolhe a ferramenta certa sem depender de tentativa e erro. É isso que este guia destrincha, posição por posição.

Características de uma pastilha

As pastilhas (ou insertos) de corte são componentes essenciais nos processos de usinagem. Fabricadas em sua maioria em metal duro e em outros materiais de alta resistência ao desgaste, como cerâmica ou CERMET (uma combinação dos dois), elas são responsáveis principalmente pelo desbaste de peças, com precisão e qualidade. Estão presentes em operações como torneamento, fresamento, furação e canalização.

Embora pareçam simples à primeira vista, as pastilhas têm uma série de características técnicas que influenciam diretamente o desempenho. Formato, ângulo, quebra-cavaco e revestimento são definidos por um sistema de codificação padronizado, que facilita a escolha da pastilha ideal para cada operação.

Classificação por grupo de material (cores ISO)

Antes do código dimensional vem a classificação por material da peça. As classes de insertos usam letras e cores específicas para indicar o que aquela pastilha foi feita para usinar:

  • P (azul): aços em geral, aço fundido e ferro maleável.
  • M (amarelo): aços inoxidáveis e aço manganês.
  • K (vermelho): ferro fundido cinzento e nodular.
  • N (verde): metais não ferrosos (alumínio, cobre, latão) e plásticos.
  • S (laranja): ligas resistentes ao calor e superligas.
  • H (cinza): aços temperados e materiais endurecidos.
Tabela das cores ISO das pastilhas: P azul para aços, M amarelo para inoxidáveis, K vermelho para ferro fundido, N verde para não ferrosos, S laranja para superligas e H cinza para aços temperados
Cada cor indica um grupo de materiais. É o primeiro filtro na hora de escolher.

Como ler o código ISO 1832

O código alfanumérico da norma descreve as características físicas da ferramenta de forma universal. Um CNMG 120408, por exemplo, diz o formato, o ângulo de folga, a tolerância, o tipo de fixação, o tamanho, a espessura e o raio de ponta, nessa ordem:

Infográfico decompondo o código CNMG 120408: C de losango 80 graus, N de ângulo de folga 0 grau, M de precisão média, G de furo central com quebra-cavacos nas duas faces, 12 de 12,7 mm de tamanho, 04 de 4,76 mm de espessura e 08 de 0,8 mm de raio de ponta
O exemplo CNMG 120408 aberto posição por posição.

1. Primeira letra: formato da pastilha

Define a geometria do inserto e, com ela, o ângulo de ponta. Abaixo estão as principais designações da norma, amplamente utilizadas pelos fabricantes.

Tabela de formatos de pastilha por letra: H hexágono 120 graus, O octógono 135 graus, P pentágono 108 graus, S quadrado 90 graus, T triângulo 60 graus, C D E M V losangos de 80, 55, 75, 86 e 35 graus, W trigon 80 graus, L retângulo 90 graus, A B K paralelogramos e R circular
Formatos padronizados pela ISO. X, Y e Z indicam geometrias especiais, fora da norma.

2. Segunda letra: ângulo de folga

É o ângulo entre a face lateral da pastilha e a superfície usinada da peça. Ele influencia a resistência da aresta de corte, a força de corte e a aplicação da pastilha.

Tabela de ângulos de folga por letra: A 3 graus, B 5 graus, C 7 graus, D 15 graus, E 20 graus, F 25 graus, G 30 graus, N 0 grau, P 11 graus e O para ângulos especiais
As letras X, Y e Z indicam ângulos não padronizados: o valor exato sai do catálogo do fabricante.

3. Terceira letra: classe de tolerância

A classe define o quanto as dimensões reais da pastilha podem se afastar das nominais. Entre as dimensões controladas estão o diâmetro do círculo inscrito, a espessura e as dimensões ligadas à posição da ponta. Quanto mais controladas, maior a precisão na montagem e no posicionamento da aresta de corte.

Tabela de classes de tolerância em milímetros para as letras A, F, C, H, E, G, J, K, L, M, N e U, com os desvios do círculo inscrito, da distância entre faces e da espessura
As três dimensões controladas: d (círculo inscrito), m (faces de referência) e s (espessura).

4. Quarta letra: tipo de fixação

Define o sistema de montagem e ajuda a identificar se a pastilha usa furo central, fixação por parafuso, grampo ou outros sistemas. A mesma letra indica se há quebra-cavacos e se ele está em uma ou nas duas faces.

Tabela de tipos de fixação por letra, de N sem furo e sem quebra-cavacos até X para dimensões especiais, com a figura em corte de cada combinação de furo e quebra-cavacos
A letra diz, de uma vez, como a pastilha prende no porta-ferramenta e onde fica o quebra-cavacos.

5. Primeiros números: tamanho da pastilha

Indicam o comprimento nominal da aresta de corte em milímetros e ajudam a identificar o porte da pastilha e a compatibilidade com o porta-ferramenta. A medição muda conforme a geometria do inserto: pode se basear no comprimento da aresta ou no diâmetro do círculo inscrito (i.c.).

Explicação do tamanho da pastilha: em pastilhas equiláteras vale o lado, em não equiláteras a aresta principal de corte e em circulares o diâmetro, com o exemplo 12 igual a círculo inscrito de 12,7 mm
No exemplo CNMG 120408, o 12 é o círculo inscrito de 12,7 mm.

6. Número do meio: espessura da pastilha

É a distância entre a face superior e a inferior do inserto, e influencia diretamente a resistência mecânica. Pastilhas mais espessas (como 06 ou 09) suportam forças de corte muito maiores e são indicadas para usinagem e desbaste pesados. As mais finas (como 02 ou 03) são voltadas para acabamento e cortes leves.

Tabela de códigos de espessura da pastilha, do 01 com 1,59 mm ao 09 com 9,52 mm, com destaque para o código T3 de 3,97 mm e o exemplo 04 igual a 4,76 mm
A letra T no lugar do número (T3) evita a confusão entre 3,97 mm e o código 03.

7. Últimos números: raio de ponta

Define o arredondamento do vértice de corte e influencia o acabamento superficial e a resistência da ferramenta. Raios menores geram menor esforço de corte e reduzem a vibração. Raios maiores aguentam esforços mecânicos mais altos e dissipam melhor o calor, deixando a ponta mais resistente à quebra.

Tabela de códigos de raio de ponta, de 00 para ponta afiada até 32 com 3,20 mm, com o exemplo 08 igual a 0,80 mm e a ilustração do raio no vértice da pastilha
Em insertos redondos a geometria inteira é um raio contínuo, e o código usado é 00.

Posições opcionais e complementares

Além das sete posições principais, há códigos adicionais que detalham condições específicas do processo e da aresta.

Posição 8: formato e preparação da aresta de corte

  • F: aresta afiada, sem arredondamento.
  • E: aresta arredondada (honed).
  • T: aresta com chanfro de proteção (K-land).
  • S: aresta com chanfro e arredondamento.
  • K: aresta com chanfro duplo.

Posição 9: sentido de corte

  • R: sentido direito.
  • L: sentido esquerdo.
  • N: neutro, serve nos dois sentidos.

Posição 10: geometria do quebra-cavaco

Posição livre, onde cada marca insere o próprio código de geometria:

  • Acabamento: -PF, -FIN, -SF.
  • Médio: -PM, -MED, -SM.
  • Desbaste: -PR, -ROU, -SR.

O que a norma ISO 1832 não especifica

A norma é completa para padronizar as dimensões geométricas e a montagem do inserto, mas não define alguns parâmetros decisivos na hora de escolher a ferramenta. Esses pontos ficam sob a responsabilidade e a padronização de cada fabricante:

  • Classe e tipo de metal duro (substrato): a norma não indica a composição do material interno da pastilha (metal duro microgrão, cermet, cerâmica, CBN ou PCD) nem a tenacidade específica.
  • Tipo e tecnologia de revestimento: não há código para o revestimento aplicado (PVD, CVD, Al2O3, TiCN, TiAlN) nem para o número de camadas protetoras.
  • Geometria específica do quebra-cavaco: a quarta letra diz se o inserto tem quebra-cavaco, mas o desenho tridimensional do perfil (acabamento -PF, médio -PM ou desbaste -PR) é código proprietário de cada marca.
  • Parâmetros de corte recomendados: velocidade de corte, avanço por rotação e profundidade de corte não fazem parte do código e devem ser consultados no catálogo do fabricante.

Na hora de comprar

Com o código lido, a escolha deixa de ser tentativa e erro: você compara pastilhas de marcas diferentes sabendo exatamente o que muda entre uma e outra. Se a sua quebra antes da hora, comece revisando formato, ângulo de folga e raio de ponta para a operação, antes de mudar de fornecedor.

Na World Tools você encontra a linha completa de insertos para torneamento, além de insertos para corte e canal, fresamento, furação e rosca. A marca SANSUI tem uma linha extensa, com os modelos padrão mais usados e diversas opções específicas.

Ficou em dúvida na aplicação? Fale com o nosso time técnico pelo Fale Conosco. Informar o material da peça, a operação e a máquina já encurta metade do caminho para a indicação certa.